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11.13.10

Ayrton Senna do Brasil

Posted in general, pt_BR, Esportes, Senna at 4:03 pm by glommer

De forma geral, quase nunca me sinto a vontade para escrever algo sobre o Senna, apesar de estar sempre disposto a falar. Não sei bem o porquê. Mas vou pegar um embalo no filme que saiu agora, e arriscar alguma coisa.

Acho que muita gente na casa dos 22, 23 anos pra baixo não consegue entender porque nós que somos um pouco mais velhos, colocamos esse cara num pedestal, como se ele fosse uma divindade que desceu à Terra. Com tanta gente por aí sendo campeã de um monte de coisa, o que leva alguém como eu, a começar a dedicatória da minha dissertação de mestrado, por exemplo, assim:

Não foram poucas as vezes que o único caminho que me parecia possível era desistir. Dessa forma, não posso começar estes agradecimentos sem mencionar aquele que mesmo não estando mais presente, foi e continua sendo meu grande incentivador: Ayrton Senna do Brasil, meu herói, ídolo e ícone, que através de seus exemplos em vida, me ensinou o que é ser um vencedor.

O Brasil do início da década de 90, era um lugar interessante. Por mais que critiquemos hoje nosso país, o daquela época em nada lembrava a pérola que hoje temos nas mãos. Economicamente, o país estava naufragado, no pós milagre. O sentimento de um Brasil grandioso, que vinha há tempos tomando forma, deu lugar a uma depressão. A nossa inflação tocava fácil as taxas de 30 %. Não ao ano, o que já assustaria um jovem de hoje, mas ao mês. O quase total fechamento comercial do país, a reserva de mercado, e coisas desse tipo, criavam um ambiente totalmente desfavorável tecnologicamente: eu não consigo pensar em sequer um produto, no Brasil, que consistentemente fosse melhor que seus similares estrangeiros. E se você quisesse comprar os importados… bom, boa sorte.

Alguns mais endinheirados conseguiam viajar para o exterior, e trazer maravilhas tecnológicas como o vídeo cassete. Linha telefônica, era coisa que se declarava no imposto de renda. Você podia vender a sua, juntar o dinheiro do carro, e dar entrada num apartamento. E provavelmente não seria um bom carro, nem um bom apartamento. O Brasil era um cachorro morto, sem expressão, sem futuro, sem esperança.

Politicamente a coisa não era muito melhor. Saíamos de uma ditadura, para ver nosso primeiro presidente civil confiscar as poupanças, gerando um clima de instabilidade e desconfiança ainda maior. Depois de tanta desgraça, o sentimento generalizado, é de que não tinha nada de bom no Brasil. Ou para citar uma pessoa que aparece dando um depoimento no filme: não tinha nada de bom. Só Ayrton Senna.

O Brasil tinha vencedores? Claro. Obviamente que essa generalização de que nada de bom aparecia por aqui não resistia a um exame minucioso, como toda generalização. No próprio automobilismo, tínhamos Piquet, Fittipaldi, que carregavam merecidamente seus títulos de campeões. A música tinha a bossa nova do Maestro, que ganhou o mundo na voz de Sinatra. E assim seguia o Brasil, com estrelas pontuais brilhando num céu de escuridão e desesperança.

E debaixo dessas nuvens negras, o Brasil ia dormir após mais um dia, esmagado pelas circunstâncias. Mergulhado num abismo de onde não era possível ver saída. Orgulhoso pelos eventuais sucessos de felizardos conterrâneos abençoados pela sorte, e só. E depois de uma semana assim, indo ao supermercado bem cedo para pagar o preço de ontem, descobrindo só hoje se haveria o que comer amanhã, a conclusão era uma só: Não dá. Mas aí, chegava o domingo.

E lá estava ele: assim como o Brasil, contra tudo e contra todos, Ayrton Senna da Silva. Cada vez que entrava na pista, não tinha a intenção de correr. Tinha a intenção de vencer. Nada mais servia, nada mais valia. Repetidos domingos, o Brasil viu Senna passar por apuros. Viu seu combustível acabar, seu câmbio quebrar, seu carro rodar. Enfim, enfrentar toda sorte de problemas que acabariam com o ânimo de qualquer um. O Brasil via um espírito de vencedor toda vez que depois de tudo isso, Ayrton Senna voltava para pista, sem abaixar a cabeça, sem abandonar a competição, para fazer o seu melhor como outros tantos tinham feito. Mas o melhor de Senna, era diferente. Fosse qual fosse a circunstância, fosse qual fosse o adversário, Senna não aceitava só cruzar a linha de chegada, não aceitava somar pontos, não aceitava competir. Para ele, independente da tempestade (e as vezes por causa dela), só um resultado servia: a vitória. Só um lugar a ele pertencia: o mais alto.

Na década de 90, nada foi diferente. Com seu capacete amarelo, sentava-se em sua histórica McLaren branca e vermelha, para enfrentar a invencível Williams, um triunfo da tecnologia. A Williams vinha carregada de apetrechos eletrônicos dos quais os outros carros não dispunham e que tornava a distância entre eles e os outros quase intransponível. Não precisaria dizer esse “quase”, não fosse Ayrton Senna. E assim, domingo após domingo, com a bandeira brasileira em punho foi nascendo a lenda. Mestre do inacreditável, do impossível, do inalcançável, pouco a pouco, Ayrton Senna da Silva ia sumindo e dando lugar ao ícone: Ayrton Senna do Brasil.

No dia 1o. de Maio de 1994, eu tinha 11 anos. Do começo da carreira do Senna, eu infelizmente não me recordo. Do final, eu infelizmente não me esqueço. Olhando pra trás, eu acho que muitos brasileiros levantavam do sofá no domingo, e lá no fundo, pensavam: “quer saber de uma coisa? Dá sim. Tem jeito.”. Foi com muita tristeza que eu vi naquele dia, a batida, o capacete imóvel, a corrida interrompida. Mas foi também com muito orgulho, que nos outros 16 anos que se seguiram a isso, que eu cresci. Sempre me lembrando daquela estrela que me ensinou que não havia circunstancia adversa que não pudesse ser vencida. Sem a menor sombra de dúvida, aquela determinação, aquela vontade invencível foi um dos elementos mais importantes da construção da minha personalidade.

No dia 1o. de Maio de 1994, morria Ayrton Senna da Silva. Hoje, 16 anos depois, dentro de mim e tenho certeza - de outros tantos brasileiros, ainda vive Ayrton Senna do Brasil.

Para terminar, um dos momentos mais emocionantes de sua carreira, de que eu me recordo

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1 Comment »

  1. Gut said,

    November 21, 2010 at 11:36 am

    É, eu já vi vc falar várias vezes dele com orgulho tb. Curti muito vc se concentrar pra escrever algo bem. Parabéns

    outro momento q pra mim marcava era esse:

    http://www.youtube.com/watch?v=qpSM2U4M_eo

    muito foda… abandonou a corrida pra ajudar o cara!

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